A Família
 
 

FAMÍLIA

 Não adiantam os manuais para alcançar a felicidade; o segredo está no amor e no carinho do ambiente familiar

Entre as grandes preocupações da atualidade, tanto das autoridades como dos indivíduos, está a violência e o aumento assustador do consumo e tráfico de drogas entre a população jovem.

Pensava-se que tais atos eram devidos à miséria, à marginalização a que estão sujeitas as pessoas que não possuem recursos materiais ou à falta de cultura. Hoje, o que se percebe é que entre a maioria dos autores de tais disparates, encontram-se pessoas de classe média e alta, adolescentes que muitas vezes tiveram oportunidade de freqüentar bancos escolares, possuem conta bancária, cartão de crédito, carro do ano, mas desconhecem o calor e o aconchego de um lar onde reinem o amor e o carinho entre as pessoas que ali residem.

Estudam-se muito as razões deste estado de coisas. Há um consenso entre os especialistas de diversas áreas em apontar como responsável uma crise que avassala a instituição familiar.

Jovens desorientados, sem responsabilidade e sem diálogo com os pais, sem noção clara do certo e do , sem o calor familiar diário, são candidatos fáceis à espiral da violência urbana. A sociedade reconhece a situação, os especialistas estudam o tema, a imprensa divulga as estatísticas e a vida continua, com a anuência tácita ou expressa dos principais interessados: os pais, que um dia se uniram pelo casamento com a intenção de educar os filhos.

Solução para a infelicidade

São jovens desajustados que procuram a felicidade no lugar , tornando sombria e perigosa a vida aos outros. A solução para deter esta avalanche de infelicidade não se encontra em nenhum manual, mas na própria família.

Em nossos dias, depois de um longo período em que as mulheres foram tratadas como seres inferiores ao homem, houve uma conquista de espaço profissional das mulheres fora do trabalho realizado dentro da casa. Não é tarefa fácil encontrar o ponto de equilíbrio e de harmonia entre a vida profissional e a vida familiar, entre o peso e a responsabilidade compartilhados pelo casal para educar os filhos e rodeá-los de carinho, e a necessidade de responder com competência às exigências do mercado e do profissional das mulheres fora do trabalho realizado dentro da casa. Não é tarefa fácil encontrar o ponto de equilíbrio e de harmonia entre a vida profissional e a vida familiar, entre o peso e a responsabilidade compartilhados pelo casal para educar os filhos e rodeá-los de carinho, e a necessidade de responder com competência às exigências do mercado e do trabalho profissional. Não é fácil, mas é possível encontrar esse ponto. É nesta harmonia, neste equilíbrio que se encontra a felicidade.

 Todos ao mesmo tempo

Numa família, todos querem ser felizes juntos e ao mesmo tempo. A felicidade de um pai e de uma mãe de família está intimamente ligada à felicidade de seus filhos. E condição indispensável da felicidade do filho o sentir-se querido, o saber-se amado e escutado. Não há sucesso profissional que justifique a insegurança e a solidão de um ser em crescimento. Não há felicidades parciais, solitárias, egoístas. Na família, todos se alegram pelo sucesso de cada um e todos apoiam a tristeza de um de seus membros. É na unidade e na fidelidade à própria família que se encontra a verdadeira felicidade.

É na família, no espelho de vida dos pais, que os filhos aprenderão os valores e os comportamentos necessários para a vida em sociedade: a confiança, a generosidade, a consciência de que os anseios são infinitos mas os bens finitos, a necessidade de prescindir das coisas em benefício dos outros. É ali que se aprende, antes do que em qualquer outro lugar, a respeitar e valorizar as diferenças de temperamento, de gostos, de desejos, de necessidades. É nesse pequeno núcleo, que por definição é a união de homem e mulher para comunhão de vida, que se aprende a ter consciência de que a felicidade não é fruto do acaso, nem mera técnica de digitação, mas decorrência de simples atos do cotidiano, carregados de carinho, respeito e generosidade para com os outros.

O reconhecimento da importância da família, núcleo de proteção do homem, seu efetivo enquadramento pelas autoridades, através de uma legislação que a livre de dissoluções; a consciência de que pais, mães e filhos são uns para os outros, farão nossa sociedade mais justa, livre e democrática, pois ela será o que for a família de cada um.

Os tempos que correm são tempos difíceis, pois não é fácil conseguir uma família unida e feliz. Mas também são tempos estimulantes porque cabe a cada um construir as bases para a felicidade da própria família.

 Um texto de Carmen Lúcia de Camargo Penteado é advogada em São Paulo e Presidente do Instituto de Estudos Mulher, Criança e Sociedade.

  

Gentileza e afeto - as pupilas dilatadas pelo amor humano

 Há algum tempo, li não sei onde um episódio ocorrido com uma escritora que foi passar dois meses numa região montanhosa de um país europeu, num período do ano em que era freqüente acontecerem grandes tempestades; ia com o propósito de conhecer os costumes da gente do campo e colher assim material para um romance.

Quando estava desfazendo as malas no pequeno chalé que alugara, com a ajuda da caseira que morava perto dali, desabou um grande temporal e as luzes se apagaram. A caseira acendeu umas velas e, enquanto atiçava o fogo na lareira, bateram à porta. Era um rapazinho de uns doze anos, conhecido da caseira. Depois de recuperar o fôlego, o menino disse:

- Vim ver se está tudo bem com a senhora.

A caseira agradeceu e apresentou-o à escritora. Como a ventania aumentasse e a chuva caísse com mais força, o rapaz perguntou à recém-chegada:

- A senhora não tem medo?

A escritora ia dizer que não, mas a caseira, que evidentemente não estava nem um pouco assustada, atalhou-a:

- É claro que ela estava morrendo de medo, assim como eu. Mas agora temos um homem aqui, e tudo vai ficar bem.

Quando a tormenta passou, o menino despediu-se e saiu, capengando do modo mais garboso que podia.

A escritora ficou pensativa e perguntou-se: "Por que não me ocorreu responder à pergunta do menino como a caseira?" E evocou tantas situações da sua vida em que se mostrara pouco sensível às necessidades dos outros por estar absorvida nas suas coisas. "Que havia naquela mulher simples do campo - continuou a pensar - que a tornava capaz de transformar um menino aleijado num homem confiante?" E teve de reconhecer: simples detalhes de gentileza e afeto.

Pois é precisamente no convívio com as outras pessoas que a atenção para os detalhes se reveste de um significado especial. Merece até um nome particular: delicadeza, que reclama uma grande diligência e grandeza de alma. É ela que permeia todas as virtudes próprias da convivência, como a cordialidade, a afabilidade, o acolhimento, o perdão, a paciência, enfim, a caridade. Manifesta-se principalmente, em palavras de Machado de Assis, "nesse desejo de bem servir que é a alma de toda a cortesia". Nunca deveria dar-se motivo para o comentário cético daquele que dizia que o lar é o centro geométrico das grandes dedicações e das pequenas desatenções.

Mas trata-se de exercitar a "arte de ser amável" não apenas no sentido ativo, mas também no sentido passivo, isto é, facilitando aos outros que nos queiram bem. Quando penso nisto, lembro-me sempre de um cantor nacional que, há uns trinta anos, fazia um programa de TV com muito sucesso e que, no fim de cada apresentação, se despedia com as mesmas palavras: "Continuem a querer-me bem, que não custa nada". É isso o que quero dizer com ser amável no sentido passivo: que, pela nossa gentileza, não custe aos outros nada ou quase nada querer-nos bem.

Fonte: "Coisas Pequenas", de J. Malvar Fonseca, Editora Quadrante, São Paulo